Desde criança tenho essa sensação que estou tendo agora.
Quando eu era criança, no colégio, em outubro já se começava a pensar no fim do ano. As provas iam chegando e aquele sentimento de término ia se instalando. O calor ia aumentando e uma ansiedade aumentava no peito.
Eu já começava em pensar em Natal e ano novo, em festa e presentes. Meu colégio católico fazia preparativos para a festa de Ação de Graças e Natal. Minha mãe e outras mães ajudavam na confecção dos enfeites e a arrumação dos mesmo na quadra poliesportiva. Tudo era concebido, comandado e supervisionado pela tia Terezinha, a professora de artes. Muitas vezes eu também fui ajudar, eu adorava o clima que ficava. Todos sujos de cola e purpurina. Eu também gostava de ir para o colégio fora do horário de aula, geralmente as reuniões para a festa eram feitas em fins-de-semana, eu ia para encontrar meus colegas e ficar no colégio brincando ou andando de bicicleta.
Então tudo ia sendo preparado para o fim do ano. Juntamente com a festa no colégio, tinha os preparativos para a festa na minha casa que eu também gostava de tomar parte. Via os enfeites e fazia um relatório do que precisávamos para comprar. Bolas de Natal, festões, castiçais, eu gerenciava essas coisas.
Aí ia chegando as provas no colégio e eu, claro, ia passando em todas as matérias. Meu colégio tinha um sistema que os alunos iam sendo dispensados das aulas em que já tinham feito as provas e tinham passado direto, ficavam os que precisavam de recuperação. Então as aulas iam gradativamente acabando e as férias gradativamente começando. Às vezes fazíamos amigo-oculto na casa de alguém que tivesse churrasqueira e piscina.
E assim tudo ia se encaminhando para o clímax que eram as festas lá em casa. Sempre comemoramos com família toda, muita gente, muita comida. E muitos presentes. A festa de Natal era uma maravilha. Minha tia, que é minha madrinha, e minha prima vinham, às vezes minhas tias-avós e seus maridos também vinham e a casa ficava cheia de gente. Todos dormiam onde desse. Minha melhor lembrança desses dias era acordar e ficar na cama ouvindo as pessoas acordando, indo ao banheiro e o barulho de atividade aumentando. As crianças se levantavam e iam brincar com seus brinquedos novos. Esses dias eram especiais.
A maioria dos que vinham para o Natal ficavam até o Ano Novo. Aí a casa ficava cheia por mais de uma semana. No ano novo a festa era igualmente grande, só mudava o cardápio e não recebíamos presentes, claro. Um monte de tradições que tínhamos que dar conta, como bater no prato à meia-noite, comer lentilha de pé na cadeira sobretudo rir muito das minhas tias-avós, principalmente a tia Cida, a irmã do meio, a fanfarrona.
Então as pessoas iam embora de volta para suas casas e a nossa ficava novamente com o mesmo contingente de sempre. E aí me dava aquela sensação que é a que tenho agora, a de que não havia mais nada a se fazer. Um misto de medo do vazio com uma excitação pelas férias e pela falta de ter que ir pro colégio. Passei tanto tempo planejando o Natal e o ano novo que agora me sinto vazio de planos para o futuro próximo. Isso é só uma sensação que vem e que passa, tenho tanta coisa para pensar, na verdade.
Ah, mas os parentes vinham e iam embora, mas não voltava tudo ao normal, ficava uma sensação de dever cumprido. E agora eu tinha que pensar de que eu ia brincar, ó decisão difícil!